quarta-feira, 23 de março de 2016

Campeão de assassinatos, Brasil perde mais da metade dos seus jovens a cada ano-Atlas da Violência 2016

Mais de 10% dos assassinatos que acontecem anualmente no planeta são registrados exclusivamente no Brasil, que detém o título mundial de homicídios. É uma das conclusões do Atlas da Violência 2016, cujos dados foram divulgados na manhã desta terça-feira (22), pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Por Thiago de Araújo Do Brasil Post Tomando por base os números oficiais de 2014, o documento aponta que 59.627 homicídios foram registrados no Brasil, o que torna o País o mais letal do mundo em número absolutos. A taxa de assassinatos aqui – 29,1 homicídios por 100 mil habitantes – é quase três vezes maior daquela que a Organização das Nações Unidas (ONU) classifica como ‘epidêmica’ (superior a 10 homicídios por 100 mil habitantes). O levantamento – que se divide entre mortes em decorrência do uso de armas de fogo, violência policial, homicídios de afrodescendentes, mulheres e jovens –apresenta outro fato preocupante: sem em cidades brasileiras mais populosas se registraram as maiores quedas no número de assassinatos, nos municípios menores o índice subiu. Exemplificando, enquanto São Paulo teve uma queda de 65% entre 2004 e 2014, em Senhor do Bonfim (BA) o aumento de homicídios foi de 1.136%. De acordo com os pesquisadores, o País vive uma “tragédia” com tamanho aumento da violência, distinta de dados já altos apurados entre 2004 e 2007 (de 48 mil a 50 mil homicídios) e de 2008 a 2011 (de 50 mil a 53 mil assassinatos). Tamanha violência causa reflexões para a diversas áreas sociais, como a saúde, e consolidam dinâmicas já conhecidas, como o fato de que homens jovens, em sua maioria negros, como as principais vítimas. O Atlas da Violência 2016 mostra que aumentou em 18,2% a chance de um negro ser assassinado, ao passo que ocorreu uma redução de 14,6% na taxa de homicídios de pessoas brancas, amarelas e indígenas. No que chama de “questão da violência por raça” que “toma proporções inacreditáveis”, o estudo apresenta ainda um perfil etário dos que mais são vítimas de homicídio no Brasil. Das mortes de homens na faixa etária de 15 a 29 anos, 46,4% são ocasionadas por homicídios. A situação fica ainda mais grave na análise dos assassinatos de homens com idade entre 15 e 19 anos: o indicador passa para 53%. Em 2014, para cada não negro que sofreu homicídio, 2,4 indivíduos negros foram mortos. Considerando os assassinatos de mulheres em 2014, um total de 4.757 foram vítimas de mortes por agressão. O número equivale a 13 mulheres mortas por dia no País. Os três Estados com maiores taxas de letalidade contra as mulheres foram Roraima (9,5), Goiás (8,8) e Alagoas (7,3). Aliás, entre os Estados a situação de Alagoas é a que mais preocupa, com taxa de 63 homicídios por 100 mil habitantes. No mesmo Estado há ainda a maior taxa de homicídio de negros (82,5), o que significa que, para cada não negro assassinado, outros 10,6 negros eram mortos. Na análise entre 2004 e 2014, seis Estados tiveram aumento no indicador acima de 100%, todos na Região Nordeste: Rio Grande do Norte (306%), Maranhão (209,4%), Ceará (166,5%), Bahia (132,6%), Paraíba (114,4%) e Sergipe (107,7%). Já São Paulo é o Estado com maior redução na taxa de homicídios, com queda de 52,4% entre 2004 e 2014. Outros sete Estados apresentaram redução no indicador no mesmo intervalo: Rio de Janeiro (-33,3%), Pernambuco (-27,3%), Rondônia (-14,1%), Espírito Santo (-13,8%), Mato Grosso do Sul (-7,7%), Distrito Federal (-7,4%) e Paraná (-4,3%). Armas de fogo No que diz respeito aos homicídios por arma de fogo no Brasil há dois anos, eles respondem por 44.861 mortes, segundo o levantamento do Ipea e do FBSP. O indicador é bem superior aos 21%, que representam a média dos países europeus. A proporção caiu com a sanção do Estatuto do Desarmamento, em 2003, quando a taxa alcançou 77%, mas a violência letal com arma de fogo no Brasil atinge patamares comparáveis a poucos países da América Latina. Em uma projeção sem a existência do estatuto, o estudo afirma que os homicídios seriam uma tragédia social ainda pior. A comparação mostra que, caso o estatuto não tivesse sido sancionado em 2003, em média, entre 2011 e 2013, seria de pelo menos77.889 homicídios no Brasil, ou 41% a mais de homicídios, em relação ao observado na pesquisa. É uma conclusão semelhante à já feita por outro estudo, o Mapa da Violência. Por Estado, as mortes por arma de fogo no Brasil acontecem mais nos Estados das regiões Norte e Nordeste – o que seria agravado, caso não existisse o Estatuto do Desarmamento. O Atlas da Violência mostra que o total de mortes nessas regiões teria sido de 7.224 (Norte) e 29.757 (Nordeste). Há ainda um trecho dedicado à letalidade policial, que aponta um quadro de subnotificação de ocorrência, comparando os dados colhidos pelo Atlas junto ao Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e os números apresentados pelo mais recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Enquanto o primeiro mostra apenas 681 mortes por intervenções policiais, o Anuário, utilizando dados coletados diretamente dos estados pela Lei de Acesso à Informação, apresenta 3.009 mortes decorrentes de intervenção policial – 2.669 delas causadas por policiais em serviço –, ou seja, há uma diferença de 1.988 mortes, sem considerar a subnotificação também existente nos registros dos Estados. Os três Estados nos quais a polícia mais mata, de acordo com o Atlas são Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia. No SIM, os números são, respectivamente, 245, 225 e 97 registros de mortes por intervenção policial. Já pelo Anuário, os dados saltam para 584, 965 e 278, respectivamente. Tags: Violência contra Mulher • violência racial e policial Portal geledés

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Seguridade aprova relatório sobre políticas de assistência à população negra

A Comissão de Seguridade Social e Família aprovou relatório da subcomissão especial que avalia as políticas de assistência social e saúde da população negra (Relatório 4/15). O relator, deputado Antônio Brito (PTB-BA), apresentou relatório com nove sugestões de proposições legislativas. Entre elas, está o requerimento de prioridade para o Projeto de Lei 7103/14, da deputada Benedita da Silva (PT-RJ), que inclui o quesito cor ou raça nos prontuários, registros e cadastramentos do Sistema de Informação em Saúde do Sistema Único de Saúde (SUS). Entre outras sugestões estão indicações ao Ministério da Saúde para criar ações de aperfeiçoamento de políticas para a população negra; tornar mais clara a intenção de ampliar a parceria e a interlocução com as casas religiosas de matriz africana na abordagem de agravos à saúde; formalizar instância gestora da saúde da população negra na estrutura organizacional, de acordo com compromissos assumidos pelo governo, entre outras. De acordo com o relator, é notório o impacto negativo de condições adversas de vida sobre o perfil de saúde da população negra. “A população negra sofre, de modo geral, com menor renda, menor escolaridade, menor acesso às condições ideais de moradia, saneamento, trabalho, transporte, saúde, e luta por direitos iguais”, apontou. Ele destacou que os indicadores sociais mostraram a iniquidade no acesso a serviços públicos, bem como na distribuição de renda, revelando-se um forte viés racial. Políticas públicas No entanto, de acordo com o relatório aprovado, os programas sociais e as políticas públicas têm alcançado a população negra nos últimos anos. “Os dados apresentados acerca da participação da população negra no público beneficiário dessas políticas indicam que o país está na direção de reduzir as iniquidades de renda e de acesso a serviços públicos. Evidentemente, ainda são muitos os desafios que se colocam na agenda, sobretudo no que se refere à superação do racismo institucional”, destacou Antônio Brito. Brito também informou que, em relação à anemia falciforme e a morte materna terem ocupado o foco inicial da subcomissão, muitos outros agravos despontaram como pontos importantes a acompanhar, entre eles glaucoma, diabetes e hipertensão. Sugestões O colegiado sugeriu orientar e induzir os governos federal, estaduais e municipais a construir metodologias de planejamento que contemplem diagnóstico situacional da população negra, bem como aumentar a representatividade da população negra nos conselhos gestores de políticas públicas, nos entes subnacionais. Outra sugestão apresentada foi lutar para que todas as políticas de promoção de saúde, controle de agravos, atenção e cuidado em saúde assimilem as especificidades da raça negra. “É urgente que se disponha de métodos de avaliação sistemática de impacto e qualidade das ações desenvolvidas, inclusive por sexo, raça, faixa etária para orientar o desenvolvimento das políticas de saúde. Da mesma forma, a interconexão com outros sistemas de informação da Seguridade Social proporcionará uma visão bem mais concreta das repercussões de agravos de saúde sobre a previdência e a assistência social. Por exemplo, permitiria a avaliação do impacto social da morte materna sobre as demandas da família e dos órfãos, ou ainda o peso previdenciário das morbidades maternas graves”, afirmou Brito. ÍNTEGRA DA PROPOSTA: PL-7103/2014 Edição – Luciana Cesar Reportagem – Luiz Gustavo Xavier 'Agência Câmara Notícias' • Expediente Disque-Câmara: 0800 619 619

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Incrível história de uma africana

12 de Janeiro de 2016, 5:04 , por Blog do Arretadinho - Visualizado 4 vezes Em outubro de 1810, Sarah Baartman foi levada da África do Sul à Grã-Bretanha para aparecer em espetáculos. (Foto SPL) Sarah Baartman: a chocante história da africana que virou atração de circo Por Justin Parkinson BBC News Magazine Há dois séculos, Sarah Baartman morreu após passar anos sendo exibida em feiras europeias de "fenômenos bizarros humanos". Agora, rumores de que sua vida poderia ser transformada em um filme de Hollywood estão causando polêmica. Sarah Baartman morreu em 29 de dezembro de 1815, mas o show, sob uma perspectiva ainda mais macabra, continuou. Seu cérebro, esqueleto e órgãos sexuais continuaram sendo exibidos em um museu de Paris até 1974. Seus restos mortais só retornaram à África em 2002, após a França concordar com um pedido feito por Nelson Mandela. Ela foi levada para a Europa, aparentemente, sob promessas falsas por um médico britânico. Recebeu o nome artístico de "A Vênus Hotentote" e foi transformada em uma atração de circo em Londres e Paris, onde multidões observavam seu traseiro. Hoje em dia, ela é considerada por muitos como símbolo da exploração e do racismo colonial, bem como da ridicularização das pessoas negras muitas vezes representadas como objetos. Boatos Recentemente, começou a correr um rumor de que a cantora Beyoncé estaria planejando escrever e protagonizar um filme sobre Baartman. Os representantes da artista negaram essa informação, mas o burburinho foi suficiente para provocar preocupação. Jean Burgess, chefe do grupo khoikhoi – a etnia de Baartman – disse que Beyoncé não conta com "a dignidade humana básica para ser digna de escrever a história de Sarah, menos ainda para interpretá-la". Ela justificou que via com "arrogância" a suposta ideia de Beyoncé de "contar uma história que não pertence a ela" e sugeriu que a atriz fizesse um filme sobre indígenas americanos. Já Jack Devnarain, presidente do Sindicato de Atores da África do Sul, disse que os cineastas têm "direito de contar a história de pessoas que as fascinam e não devemos nos opor a isso". Ao negar qualquer vínculo com o filme, o representante de Beyoncé ponderou que "esta é uma história importante que deve ser contada". História A vida de Baartman foi marcada por penúrias. Acredita-se que ela tenha nascido na Província Oriental do Cabo da África do Sul em 1789. Sua mãe morreu quando ela tinha dois anos e seu pai, um criador de gado, morreu quando ela era adolescente. Ela começou a trabalhar como empregada doméstica na Cidade do Cabo quando um colono holandês assassinou seu companheiro, com quem havia tido um bebê que também morreu. Em outubro de 1810, apesar de ser analfabeta, ela supostamente assinou um contrato com o cirurgião inglês William Dunlop e o empresário Hendrik Cesars, dono da casa em que ela trabalhava, que disse que ela viajaria para a Inglaterra para aparecer em espetáculos. Atração Quando ela foi exibida em um estabelecimento em Piccadilly Circus, em Londres, causou fascinação. Leia também: A surpreendente entrevista dado por "El Chapo" a Sean Penn "É preciso lembrar que, nesta época, nádegas grandes estavam na moda, e por isso muitas pessoas invejavam o que ela tinha naturalmente", diz Rachel Holmes, autora de A Vênus Hotentote: vida e morte de Saartjle Baartman. O motivo para isso é que Baartman, também conhecida como Sara ou Saartjie, tinha esteatopigia, uma condição genética que faz com que a pessoa tenha nádegas protuberantes devido à acumulação de gordura. Essa condição é mais frequente em mulheres e principalmente entre aquelas de origem africana. Mas a própria palavra é motivo de debate, porque, para muitos, seria racista o fato de ela sugerir que se uma mulher tem nádegas grandes e é negra, sofre de uma doença. Já para as nádegas pequenas a palavra é "calipigia", em referência à famosa estátua romana Vênus Calipigia – que significa "a Vênus das nádegas belas". Toda uma Vênus No espetáculo, Baartman usava roupa justa e da cor da sua pele, contas e plumas e fumava um cachimbo. Clientes mais abastados podiam pagar por demonstrações privadas em suas casas, em que era permitido que os convidados a tocassem. Os "empresários" de Baartman a apelidaram de "Vênus Hotentote" porque, nesta época, esse era o termo que os holandeses usavam para descrever os khoikhois e aos san, os principais membros de um importante grupo populacional africano, os khoisans. Atualmente, o termo 'hotentote' é considerado pejorativo. Livre ou assustada? Nesta época, o império britânico já havia abolido o tráfico de escravos (em 1807), mas não a escravidão. Charges políticas foram feitas com figura de Baartman Mesmo assim, ativistas ficaram horrorizados com a forma como os empresários de Baartman a tratavam em Londres. Eles foram processados judicialmente por deter Baartman contra sua vontade, mas foram declarados inocentes. A própria Baartman testemunhou a favor deles. "Ainda não se sabe se Baartman foi forçada, como os defensores da abolição e os ativistas humanitários alegavam, ou se atuou por livre arbítrio", diz o historiador Christer Petley, da Universidade de Southampton, na Inglaterra. "Se eles a estavam obrigando a trabalhar, é possível que tenha se sentido intimidada demais para dizer a verdade no tribunal. Nunca saberemos." "O caso é complexo e a relação entre Baartman e seus chefes definitivamente não era igualitária." A caminho de Paris Holmes destaca que o show de Baartman incluía dança e interpretação de vários instrumentos musicais, e diz que um público "sofisticado" em Londres – uma cidade em que as minorias étnicas não eram raras – não teriam se encantado por muito tempo com ela apenas pela sua cor. De qualquer forma, com o tempo, o show da "Vênus" foi perdendo seu caráter de novidade e popularidade entre o público da capital, e por isso ela saiu em turnê pela Grã-Bretanha e Irlanda. Em 1814, foi para Paris com seu empresário, Cesars, e outra vez virou uma celebridade, que tomava coquetéis no Café de Paris e ia às festas da alta sociedade. Cesars voltou para a África do Sul e Baartman caiu nas mãos de um "exibidor de animais" cujo nome artístico era Reaux. Ela bebia e fumava sem parar e, segundo Holmes, "provavelmente foi prostituída por ele". 'Grotesco' Eventualmente, Baartman aceitou ser estudada e retratada por um grupo de cientistas e artistas, mas se recusou a aparecer completamente nua na frente deles. Ela argumentava que isso estava além de sua dignidade: nunca havia feito isso em seus espetáculos. Foi neste período que teve início o estudo que chegou a ser chamado de "ciência da raça", diz Holmes. Baartman morreu aos 26 anos de idade. A causa foi descrita como "uma doença inflamatória e eruptiva". Desde então, cogita-se que tenha sido resultado de uma pneumonia, sífilis ou alcoolismo. O naturalista Georges Cuvier, que dançou com Baartman em um das festas de Reaux, fez um modelo de gesso de seu corpo antes de dissecá-lo. Além disso, preservou seu esqueleto, pôs seu cérebro e seus órgãos genitais em frascos, que permaneceram expostos no Museu do Homem de Paris até 1974, algo que Holmes descreve como "grotesco". De volta para casa "A dominação dos africanos foi explicada com ajuda da ciência, estabelecendo que os khoisan eram um grupo menos nobre no progresso da humanidade", escreveu Natasha Gordon-Chipembere, editora de Representação e feminilidade negra: o legado de Sarah Baartman. A chocante história da africana que virou atração de circo Após sua eleição em 1994 como presidente da África do Sul, Nelson Mandela solicitou a repatriação dos restos mortais de Baartman e o modelo de gesso feito por Cuvier. O governo francês acabou aceitando o pedido e fez a devolução, em 2002. Em agosto do mesmo ano, seus restos mortais foram enterrado em Hankey, província onde Baartman nasceu, 192 anos após ela sair com destino à Europa. Vários livros já foram publicados sobre a maneira como ela foi tratada e sua transcendência cultural. "Ela acabou se tornando um molde sobre o qual se desenvolvem múltiplas narrativas de exploração e sofrimento da mulher negra", escreveu Gordon-Chipembere, que acha que, em meio à tudo isso, Baartman, "a mulher, permanece invisível". Em 2010, o filme Black Venus e o documentário The Life and Times of Sara Baartman contaram a história dela. Em 2014, a revista americana Paper botou na capa uma foto da celebridade americana Kim Kardashian balançando um copo de champanhe sobre suas nádegas avantajadas. Vários críticos reclamaram que a imagem lembrava desenhos retratando Baartman. No ano passado, uma placa no local em que ela está enterrada em Hankey foi vandalizada com tinta branca. Isso ocorreu na mesma semana em que a Universidade da Cidade do Cabo retirou, após protestos, a estátua de Cecil Rhodes, um empresário e político do século 19, que declarou notoriamente que os britânicos seriam "a primeira raça no mundo". "As pessoas estão resolvendo sobre como querem lidar com essas questões", diz Petley. "Muitas vezes elas foram ocultadas, e chegou a hora de reavaliá-las." Fonte: http://feedproxy.google.com/~r/BlogDoArretadinho/~3/N0L0mwtlIlY/a-chocante-historia-da-africana-que.html

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Heroínas Negras

Por Cintia Soares no Chuva Ácida via Guest Post para o Portal Geledés Novembro é considerado o mês da Consciência Negra, por conta do dia de hoje (20 de novembro). Nesse período, vemos muitas homenagens para Zumbi dos Palmares que foi líder do quilombo de Palmares e um guerreiro contra a escravidão no período colonial. Concordo que Zumbi seja uma importante figura histórica, mas e as mulheres negras como Dandara,Tereza, Luisa e Aqualtune? Elas também lutaram e resistiram bravamente, na liderança dos quilombos e nas comunidades de luta contra a escravidão e o racismo. Mesmo com toda essa luta, ainda assim só os homens são lembrados. Essas mulheres também precisam ter seus nomes, histórias e lutas expostos. Mas enquanto essas mulheres tão notáveis e com tamanha importância raramente recebem o devido reconhecimento, as mulheres negras, atualmente, também encontram dificuldade para conseguirem qualquer reconhecimento nas mais diversas áreas da sociedade. Vemos muita divisão até na luta das mulheres por igualdade. Como pode? Uma das mais fortes reivindicações das mulheres brancas é o mercado de trabalho ou o combate aos estereótipos que representam as mulheres como o sexo frágil. Enquanto isso, as mulheres negras enfrentam há tempos a luta contra a escravidão moderna, uma cópia mais “light” do que era imposto até o século XIX. Muitas mulheres brancas, patroas, acabam com a moral das suas empregadas ou babás que, em sua maioria, são negras. Quando não as veem como rival, pois mulheres negras ainda são vistas como objeto sexual por alguns patrões, herança da cultura escravista do país, em que os “senhores” estupravam as escravas. Vemos tudo isso ser representado nas novelas. Raramente vemos novelas em que não se tenham empregadas negras, ou que se tenham protagonistas negras. Só me lembro da Tais Araújo, única, na minha geração. Nós, mulheres, devemos nos unir, juntar forças para vencermos. Os diversos índices e pesquisas sociais no Brasil mostram, frequentemente, evidências de que as mulheres negras vivenciam os níveis mais altos de violência e violação de direitos. A desigualdade salarial entre homens e mulheres, quando analisada sob a perspectiva racial, se torna também uma desigualdade salarial entre mulheres brancas e negras. As mulheres negras estão entre a maioria das vítimas de feminicídio (perseguição e morte intencional de pessoas do sexo feminino, classificado como um crime hediondo, no Brasil.). Quando o tema é a ilegalidade do aborto, as consequências da clandestinidade também são mais pesadas para as mulheres negras por serem maioria pobre na estatística de classe social e que, por isso, não têm as mesmas oportunidades que as mulheres brancas de interromper a gestação em outro país ou em clínicas particulares. Gente, de que adianta Consciência Negra se não temos um combate contra o machismo em paralelo? Pra realmente surtir efeito, não ser mais uma data em que são feitas homenagens, falsas promessas e declarações, além de feriados em muitas cidades e da pergunta típica: “feriado de que mesmo?”, é preciso realizar reflexões, fazer um resgate histórico, analisar as consequências da escravidão e como os negros e as negras estão vivendo hoje no país. Não tem como existir luta por igualdade de gênero sem combater o racismo. Assim como não há luta antirracista sem a luta por igualdade de gênero. A intersecção das lutas contra as opressões é necessária. Por isso, o feminismo negro é necessário. As pessoas devem entender que mulheres negras não têm escolha sobre a possibilidade de sofrerem um ou outro tipo de discriminação; ambas as violências se repetem de maneira interligada, em moldes direcionados exclusivamente e especificamente às mulheres negras. Ainda hoje, há muitas diferenças entre as questões das mulheres brancas e negras. De maneira similar, por mais que estejam unidos na luta contra o racismo, há certos tipos de violência que os homens negros não enfrentam. Infelizmente, tanto nos movimentos de mulheres quanto nos movimentos negros, as mulheres negras ainda lutam para que suas necessidades sejam ouvidas e representadas. A exemplo das guerreiras negras na história do Brasil, nem sempre a dedicação à luta é o suficiente para que as nossas demandas sejam atendidas ou contempladas. Encerro esse texto citando um poema com autoria de Zuleika dos Reis: SER NEGRA – Homenagem ao Dia da Consciência Negra Negra é a mulher que tem sido minha irmã, que nos ajuda, há muito, a mim e a minha mãe, a segurar as barras do cotidiano insalubre. Negra é a pele que me vai por dentro, herança dos meus ancestrais. Negro é o blues que me invade, com todas as suas línguas feitas de saudade e de desterro. Negras são certas saudades: volúpia, sofrimento. Negra é a linda canção que cantava a filha daquele que foi meu homem, canção que ela aprendeu de sua avó. Negra é a negra noite, quando se sonham os sonhos mais profundos. Negro de belezas é o silêncio dos amantes plenos um do outro. Negra sou eu quando deixo que acordem em mim todas as áfricas. Negra é a África, berço do mundo. Felizes dos que se alegram, dos que se orgulham pelo negro, pela negra que todos carregamos por fora, por dentro; negritude que nos amplia, que nos ensina, que nos ultrapassa, que fere os nossos limites, para que possamos prosseguir. Tags: Mulher Negra

sábado, 28 de novembro de 2015

“O Brasil não pode repetir com os refugiados o erro da escravidão”

Publicado há 2 meses - em 19 de setembro de 2015 » Atualizado às 9:26 Categoria » Em Pauta • Questão Racial O advogado Pitchou Luambo, de 34 anos, é um vencedor: conseguiu deixar para trás uma guerra civil sangrenta e a opressão de um governo autoritário em sua terra natal, a República Democrática do Congo, para recomeçar a vida no Brasil, onde vive desde 2010 –sorte contrária a de muitos de seus conterrâneos, que diariamente correm o risco de perder a vida ou a liberdade. É um entre milhares de refugiados que anualmente chegam ao Brasil para escapar das consequências de conflitos armados, do autoritarismo político ou das condições de vida precárias. O que encontram aqui, no entanto, é um novo conjunto de obstáculos que alimentam uma situação também dramática. “Será que já me habituei a viver no Brasil? Não sei”, diz, pensativo. “Todos os dias, é luta, luta, luta. Nós vivemos sempre no presente, resolvendo problemas. É difícil começar a planejar o futuro ou dizer que expectativa tenho. E esse sentimento é geral entre os refugiados, de todos os países”, conta. Para reverter esse ciclo vicioso, que aprofunda os problemas que os refugiados e imigrantes já enfrentariam naturalmente em sua adaptação um novo país, Pitchou fundou o Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem-Teto de São Paulo (GRIST), com o objetivo de organizar eventos culturais, aulas de francês e rodas de diálogo com brasileiros para apresentar a si mesmos, suas histórias e costumes, e buscar um novo tipo relacionamento a sociedade brasileira, mais igual e solidário. O próximo evento de aproximação entre refugiados e brasileiros organizado pelo GRIST ocorre em São Paulo neste domingo (20), próximo ao terminal de ônibus de Cidade Tiradentes. Pitchou, que não tem estabilidade financeira para viver de aluguel, mora em uma ocupação no centro de São Paulo, assim como outros refugiados africanos de países como Togo, Benin, Mali e Camarões, além de imigrantes de países da América do Sul e Caribe, como Bolívia, Peru e Haiti. Todos eles compartilham a dificuldade de conseguir uma renda fixa e a aceitação dos novos vizinhos brasileiros. “O primeiro problema quando cheguei foi o idioma. Depois, conseguir emprego. Qualquer emprego, porque eu não consigo trabalhar na minha profissão. Hoje digo que eu ‘era’ e não que ‘sou’ advogado, porque já são cinco anos sem atuar”, explica. É difícil até conseguir trabalho braçal, embora muitos dos refugiados tenham formação de ensino superior, como Pitchou. “Até para ser servente de pedreiro, eles pedem experiência profissional. Mas como eu vou ter essa experiência? Nunca trabalhei nisso. No Congo, para se formar advogado, você estuda das 8 h às 18 h, todos os dias; e eu só trabalhei na minha área”. Não se trata apenas de burocracia: a dificuldade para ser contratado é, também, consequência de preconceito racial e cultural, que impõe barreiras à assimilação dos imigrantes na sociedade brasileira. “Muitas vezes, percebemos que usam desculpas forjadas para não nos empregar”, diz Pitchou. Por esse motivo, mesmo quando o emprego aparece, as condições geralmente são precárias: a maioria das vagas, especialmente na construção civil, é sem registro ou direitos trabalhistas, para períodos de experiência de seis meses. “Às vezes, o empregador sabe que a obra vai durar só quatro ou cinco meses, por exemplo. Ou então apenas dispensa sem motivo. É um esquema de trabalho que dá muito lucro, mas não dá estabilidade ao refugiado. O período que ficamos desempregados é muito maior que o tempo que passamos trabalhando”, lamenta Pitchou. “Nós estamos junto com os brasileiros construindo a história do país. Amanhã, meu filho não será refugiado, será brasileiro. Ele não vai ter sotaque. Eu, amanhã, posso ser seu sogro. Meu filho pode ser seu genro, então vamos tentar ajudar. Hoje, você está maltratando alguém que poderá ser parte da sua família”, afirma, e faz um paralelo com a história dos primeiros imigrantes africanos que chegaram ao Brasil, sequestrados pelos escravistas portugueses. “Se não fosse a cultura dos escravos, a música, a comida, como seria a cultura brasileira hoje? Naquele período, foi a escravidão que trouxe eles para cá. Hoje, são as guerras mundiais que nos trazem. Mas, do jeito que estamos levando as coisas, corremos o risco de escrever a mesma história. Porque os africanos chegaram naquela época como mão de obra barata, sem perspectiva de vida. De certa forma, é o que acontece hoje também”. Pitchou conta que todos os brasileiros que encontra se esforçam para demonstrar solidariedade, mas muitos têm dificuldade de compreender que, mais grave do que o drama passado, são os problemas do presente. “Eu fico muito triste quando eu me encontro com as pessoas e explico que sou refugiado, que um dia saí de casa de manhã e encontrei mil pessoas mortas onde eu vivia e tive de sair pulando os corpos, e os brasileiros ficam tristes. Todos choram. Só que quando eu falo que estou passando dificuldade aqui, que estou passando fome, que não tenho onde dormir, aí dizem que no Brasil é assim mesmo”, resume. Tags: em pauta • escravidão • Questão Racial • refugiados Leia a matéria completa em: “O Brasil não pode repetir com os refugiados o erro da escravidão” - Geledés http://www.geledes.org.br/o-brasil-nao-pode-repetir-com-os-refugiados-o-erro-da-escravidao/#ixzz3spDdQAiw Follow us: @geledes on Twitter | geledes on Facebook

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

CONSCIÊNCIA

Não! Não me venha com Consciência Branca, Consciência Humana, com 100% Branco. Esta história negra à brasileira de dor e exclusão, segregação e racismo diário nunca nos desceu. Não tenho o pé na cozinha e nem na Senzala! Minha ascendência é de reis e rainhas, sacerdotes e sacerdotisas. Denegrir é tornar negro, então pode me denegrir à vontade. Vamos denegrir o mundo. Mulato é filho de mula! Negras mulheres, negras rainhas! Não são seu objeto de desejo? Fecha sua cara mané, respeito conserva os dentes! Cabelo ruim? Ah é? Então me diz o dia que ele brigou com você? Não sou essa gente de cor. Somos essa gente de alma e sentimento. Nossos jovens pretos estão morrendo. Você não viu? Ou fez que não enxerga? A dor é nossa. A carne mais barata do mercado é a carne negra? Na suas ideias só se for. Não estamos à venda. Exu nunca foi seu diabo europeu. Meus deuses são negros e qual o problema nisso. E são de guerra, estão na batalha para trazer a paz. Hoje é dia de reflexão. Acorda! Esse mundo de igualdade nunca existiu. Fácil falar de fome com um prato na mesa. E nem vem com essa de estão dividindo o Brasil. Vai no Congresso Nacional que é Branco e no Presídio Preto e me diz qual é a sua igualdade tupiniquim. A verdade é que toda preta e todo preto tem seu diário particular de um detento para contar. Sorriso negro forjado na lágrima. Mas se você não quis ver a história do Brasil, ao menos hoje se ponha a refletir o porquê? Faz o teste do pescoço. Olha para o lado no seu churrasco de picanha e Re Label e veja quantos pretos e pretas estão com você? Olhou? Então! Felipe Brito

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A Consciência Negra é necessária

Publicado há 1 dia - em 5 de novembro de 2015 » Atualizado às 9:29 Categoria » Questão Racial Mês de novembro chegou e com ele vem o dia da Consciência Negra. Muitas pessoas questionam o motivo de tal data, reforçando que o que deveríamos ter, realmente, era um dia da Consciência Humana. Por Flipe Cardoso Do Chuva Acida Muito admira os questionamentos e as intromissões quando se trata das pautas da população negra. Em outubro tivemos três festividades germânicas no estado, mas os mesmos questionamentos não foram feitos. Não foi cobrado, por exemplo, para que fosse realizado uma festa das tradições joinvilenses, com todas as culturas representadas, ao invés de celebrarmos apenas a cultura germânica. Esses questionamentos mostram uma tentativa de silenciar quem sempre lutou e luta para ser escutado e representado. Esses questionamentos são frutos de uma cultura racista que nunca permitiu ou viu com bons olhos o que era produzido pela população negra que, aqui na região, insistem em afirmar que não existia, mesmo que a história afirme o contrário e mostre que, em Joinville, os negros e negras – escravizados e libertos – já frequentavam a região, junto com as famílias luso-brasileiras, e ajudaram os primeiros colonizadores, alemães e noruegueses, que aqui chegaram, em 1851. Para quem ainda duvida, visitem o Cemitério dos Imigrantes de Joinville e vejam lá enterrados alguns dos escravos que aqui viveram. Além do resgate e da luta para que essa história seja propagada e apresentada tanto para moradores, quanto para turistas, a Consciência Negra se faz necessária em uma cidade que continua a insistir ser pertencente a um só povo e que, com isso, contribui para o surgimento de grupos neonazistas e separatistas. Ao acreditar que o problema racial seria resolvido se fosse silenciado, seguindo a lógica Morgan Freemiana, permitiu-se que o problema crescesse, fazendo surgir diversos casos e denúncias de racismo. Recentemente, o caso envolvendo a modelo Haeixa Pinheiro, na disputa do concurso para eleger a rainha da 77ª Festa das Flores, viralizou na internet e deixou mais do que evidente a importância de uma data que relembre o sofrimento da população negra no período escravocrata e as consequências dessa época que persistem até hoje. A invisibilidade negra nos concursos de beleza, por exemplo, é parte das grandes consequências geradas pela escravidão em terras brasilis. Não me agrada esses tipos de concursos, a objetificação da mulher e sua exposição, tendo que corresponder a um padrão pré-estabelecido, reduzindo todas as suas qualidades a simples aparência, tentando criar padrões que demonstrem o que é belo e o que é feio, o que é bom e o que é ruim, o que deve e o que não deve ser aceito, mas diante dos fatos é preciso fazer uma outra análise sobre outra problemática existente: o racismo. Se é permitido a presença de mulheres brancas disputando a coroa de rainha das Escolas de Samba, no Carnaval, por que não é permitido a presença de mulheres negras na disputa pela coroa em eventos da cultura germânica? Ainda insistem em nos intitular como extremistas e intolerantes, quando a realidade nos mostra o contrário. Haeixa pode até não saber, mas representa a negritude joinvilense, todos aqueles e aquelas que se escondem, não querem tocar no assunto, sentem medo. Haeixa está encorajando negros e negras a buscarem a Consciência, a representatividade e o direito de dizer que estamos aqui, que ajudamos a construir essa cidade e que queremos respeito. Respeito à nossa cultura, as nossas tradições. Respeito à diversidade. Somos diferentes, sim. Minha pele negra é diferente da pele branca, mas não é isso que gera o racismo. O que gera o racismo é querer usar dessa diferença para sobressair, tirar vantagem das outras pessoas, hierarquizar. Foi isso que foi feito na escravidão e persiste até os dias de hoje. Sobre os que têm e os que não têm, os que mandam e os que obedecem, os que vivem e os que morrem, os que são livres e os que são encarcerados… Acredito também que devemos ver o que nos une, mas sem um olhar clínico, crítico e analítico do que nos separa, jamais atingiremos a unidade que tanto queremos. É esse olhar clínico que a Consciência Negra tenta trazer todos os anos, todos os meses, todos os dias, mas nunca consegue ser escutada. Os problemas raciais são estruturais no nosso país, não é esvaziando os debates, não é tentando silenciar que iremos chegar a uma solução eficaz. É justamente por meio da escuta, da educação, da pesquisa, da leitura, do conhecimento e, principalmente, da empatia. Se você quer mesmo ter uma Consciência Humana, comece entendendo que a Consciência Negra é importante, pois com todas as desumanidades que nós enfrentamos nos mantemos de pé, tentando dialogar e ensinar um pouco mais sobre a nossa cultura, a pedir mais respeito, a lutar pelo fim do genocídio e da marginalização da nossa população, da nossa religião, das nossas tradições. Salve Zumbi! Salve Dandara! Salve Tereza! Salve todos os heróis e heroínas, negros e negras, que morreram lutando por justiça e liberdade! Estão vivos e serão sempre lembrados. Portal Geledes Tags: Consciência Negra • Questão Racial